sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sério?

Ontem, quando já era hoje, ele me deixou em casa. Um rapaz com nome estranho e mãos grandes. Nos beijamos e tal, e como quando eu era adolescente, fiquei de amasso dentro de um carro na porta de casa. Fui um pouco mais longe claro, que ter mais de trinta anos e já ter lido O segundo sexo tem suas vantagens.
Não trocamos telefones nem promessas. Não marcamos nada.
Mesmo assim, ou talvez por isso, acordei rindo sozinha e contei para minha mãe o porque das buzinadas escandalosas as cinco da manhã. Cotovelos e pernas demais, querida Mamãe. Ela riu comigo. Porque sabem, mulheres livres, normalmente tem mães que já o foram (e ainda são) bem antes delas.
Aí sobrou mote para ficar pensando em liberdade e escolhas. E sexo. Um pouco mais tarde, comentei com Lú que parece que ficamos mais soltas e vivas e sim, sexuais, quando não pretendemos levar adiante a relação com o parceiro de lubricidades.
E isso me pareceu de uma burrice tão, tão grande, não é mesmo? Porque se mostrar com tesão, gostando de dar e receber prazer poderia ser um impecilho para o rapaz "te levar a sério"? O que porra é afinal ser levada a sério?
Dia desses, um ex comentou com uma amiga minha que um cara havia comentado com ele que tinha ficado surpreso por ele ter "me levado à serio.". Vejam que beleza, que coisa linda e cheia de graça são esses garotos e seus comentários. O engraçado é que o autor de tal pérola sobre mim para esse ex, foi um cara que já se sentiu no direito de colocar minha mão no seu pau sem nem ter me beijado antes.
E sou eu a pessoa que não deve ser levada a sério? Conta outra, prezado rapaz. Ah sim, esqueci, é que eu sou fácil.
Então tá. Como escrito lindamente no post abaixo, mulher livre é sinônimo de mulher fácil.
Eu, hein?
Olha, na verdade eu me acho bem dificil, sabe? Bebo demais, falo palavrão em excesso e sou dona das minhas opiniões e vontades. Quer maior dificuldade que essa?
Um outro que teve a coragem de "me levar a sério", achava que eu devia me comportar melhor, usar roupas mais "decentes", me conter, diminuir, virar sombra, já que ele, um rapaz digno, trabalhador e de boa família havia me validado com o casamento. Virou ex-marido.
Outra vez, neste mesmo blog, escrevi sobre ter negado ir para cama com alguém e a tristeza regada a enlatado americano e pipoca decorrente dessa decisão de mulher séria. Uma menina quase me parabenizou e disse que eu havia feito o "correto". Uma mulher, vejam bem...
E não adianta negar, muitas de nós, somos em parte responsáveis por manter estigmas machistas. Confesse que já chamou (ou pensou) como puta uma mulher que assumiu sua sexualidade sem grandes dramas.
Eu hoje, me flagrei envergonhada, porque é sim também validar machismo, se conter na cama (ou no carro ou na praia ou na escada ou... enfim, vocês entenderam) para ser levada à sério. E eu já o fiz, assumo. Tentarei não repetir essa burra atitude. Porque adivinha quem perdeu, baby?
E outra coisa, se for para tentar me tornar em algo que eu não sou, por favor, não me levem à sério mesmo.
Grata.
Sem mais.
Por enquanto.

Mulher é desdobrável 2 – ou – Puta?, presente!

Esse texto é, além de bem escrito, uma aula para muito babaca machista que infelizmente ainda existe por aí. "Roubado" lá do Blogueiras feministas. Aproveita e dá uma passadinha por lá depois....


A última vez que escrevi aqui, falei de como o fardo feminista andava pesado. Ou de um lado somos mal humoradas e mal amadas, ou de outro fáceis e destruidoras da família tradicional. (Ai, cansei. Meus ombros estão doendo)

Vamos lá, então. Ao final terminei citando uma frase de Simone de Beauvoir sobre essa mulher livre e seu fardo. ”Na França, principalmente, confunde-se obstinadamente mulher livre com mulher fácil”. E essa a segunda sina do feminismo – apesar de ter a sensação que o número pode ser ainda maior…

A estrutura do patriarcado sustenta-se, entre outras coisas, na repressão do desejo feminimo. Nossa cultura não só objetifica a mulher como também a infantiliza, tudo com uma mesma mensagem interna: o corpo feminino é uma propriedade de todos, menos da própria mulher. E aí vem o carimbo de que falei: uma feminista, ao defender a “retomada” do corpo feminimo para si mesma, torna-se o inimigo, a libertária…a puta (ok, desculpem o exagero da palavra, mas vamos lá, sem imposições da linguagem da mocinha, como bem já disse aqui a babslopes).

A cultura machista precisa repetir a mensagem de que o corpo feminino é um objeto, para a admiração e deleite de todos, ou melhor, para o controle masculino. Essa objetificação inferioriza – e eu nem precisava dizer isso, óbvio, se a mulher é um objeto… o que mais dizer? Com isso, no entanto, não me refiro apenas ao fato de transformar a mulher em um enfeite, um meio de vender de cerveja a carros; a questão vai além. A objetificação e a infantilização garantem o controle masculino sobre o desejo e o prazer femininos. E as feministas, de novo, no caminho. Ora, uma mulher que defende que o desejo feminino tem ou pode ter os mesmos contornos do tão proclamado, comentado, institucionalizado desejo masculino, só pode ser uma… puta! Afinal, o patriarcado não pode aceitar essa mulher libertária dona do próprio nariz… e do próprio orgasmo. “Como, então, continuar controlando essa mulher que já sabe os caminhos do próprio corpo e dele se reconhece, agora, dona?” pensa o patriarcado. “Daqui em diante, diremos que mulheres assim querem destruir a família, a moral, os bons costumes. Mulheres assim querem viver promíscua e irresponsavelmente e depois é só fazer um aborto” (porque né, uma mulher que defende o aborto já sai de casa pensando: vou transar por aí e qualquer coisa, tiro. Claro)

Então se defender que meu corpo é meu, que meu desejo deve depender apenas da minha livre decisão e não das imposições da falsa moralidade do patriarcado é ser puta: presente! E se você acha que isso retira o prazer masculino da conquista, da sedução… eu só posso dizer que você deveria conhecer mais feministas em sua vida e somar a ela um pouco mais de criatividade e prazer de verdade: essa conquista que se mistura a dominação, inferiorização e controle, está tão fora de moda, rapaz…

E se ao ler tudo isso você pensou: puta! Obrigada, você acabou de validar cada uma das minhas palavras acima.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Nervosa

Não sei porque estou nervosa. Sabe aquelas primeiras festinhas que você vai quando está entrando na adolescência?
A sensação de frio na barriga, escolher cuidadosamente a roupa que vai vestir, elaborar como vai agir.
É apenas mais um show, mais uma sexta, as mesmas pessoas de sempre, tento me convencer, abusada e impaciente comigo mesma. Mas quem disse que adianta...
Não sei porque estou nervosa.
Intuição?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Aviso

Aviso aos navegantes: Eu estou viva, bem e operante.
Consegui outra exposição para Junho.
Um trabalho luxo para Março.
Estou produzindo, filmando e editando.
Meu horoscópo tá legal.
Faz sol lá fora.

Enfim...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Diferente

Engraçado que mesmo quando esperamos uma notícia, que apesar de mexer com algumas estruturas suas e ser dolorosa, é necessária, quando ela chega não deixa de ser um baque.
Hoje aconteceu comigo. Fico repetindo: Tudo vai dar certo, foi melhor assim. Mas enfim, o triste é perceber que você não deu o seu melhor e agora não há mais nada que se possa fazer. The end, baby, the end!
Resta é aprender com os erros e tentar fazer diferente da próxima vez.
Assim seja!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Novamente

Postado aqui no blog há algum tempo atrás. Hoje. Novamente.

Talvez porque nada é tão triste quanto um fim, exista tanto temor frente aos recomeços. Sim, eu tenho medo, morro de medo, assumo. Não quero mais essa dor que rasga tudo que você demorou tanto tempo para costurar e então vestir coração e aquecer a alma.

Não quero tudo dilacerado. Não sei mais como...

Não quero ver todos os meus jardins pessoais devastados por pragas que não sei como tratar. E ver tudo que era verde e broto e promessa, murchando até fenescer...

E me flagro quase chorando, porque essa ternura que insiste em estar aqui, em mim, todo o tempo, me pega de surpresa sussurrando encantamentos e cantigas de consolo. Viro as costas e ela me persegue pela casa, entranha-se em cheiros que trazem lembranças de tempos tão felizes.

Não quero. E digo não e não e não. Mando-a embora, mas ela se recusa. Ela fica. E hoje não tem vinho nem outra anestesia para fingir que ela é apenas mais um fantasma inconveniente.

TPM

Tudo tão complicado. Triste. Vão.
Cigarro em excesso.
Chocolates variados para tirar o travo de rancor da boca, do baixo ventre e do coração.
Quero morder de raiva a mão do mundo até que ele sangre.

Vontades demais. Dá conta? Eu não... eu não...

domingo, 30 de janeiro de 2011

Briga

O post anterior foi deletado.
Léo me fez cair em mim.
Mas saiba, querido, que chamar neguinho para conversar num canto, nunquinha.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Quem tem medo dos gays?

Olha, esse mundo virtual é uma delícia. Eu amo a Lú e foi ela que primeiro "roubou" o texto abaixo do Rafa, que eu também amo.
Se Dadá assim o permitir tomaremos todas e mais algumas, um dia no Rio, nós três juntinhos.
E ah, como riremos e brindaremos, meus lindos...

Aproveitem...

Quem tem medo dos gays?

Prezadas famílias de comercial de margarina, células fundamentais da nossa sociedade, núcleos familiares formados por um pai provedor-bonachão-de-bigodes, mãe-de-avental-fazendo-bolinhos-de-chuva-no-Domingo-de-tarde e crianças-loiras-e-sapecas-comendo-seus-sucrilhos-no-café-da-manhã: Nós os gays, também chamados de bichas, viados, boyolas existimos!

Talvez vocês não tenham reparado, mas aquele tio solteirão, o primo que raramente comparece às festas de família e sempre que vai, leva um amigo, sãos gays. Desculpem-me avisá-los assim, mas há entre nós senhores de respeitável aparência e família solidamente formada e mulheres eternamente insatisfeitas com os maridos que, uma única vez, numa Quinta à noite tocaram suas amigas por sobre a blusa. Isto e pegações em lugares escuros, encontros fortuitos e uma psique destroçada era todo o possível para nós, as bichas, até algumas décadas atrás.

Felizmente hoje, nós temos maior visibilidade e aceitação social. A sensação que se tem de que a “ameaça gay” está se alastrando é só isso: uma impressão. O que acontece é que homens e mulheres gays deixaram de constituir famílias heterossexuais que seriam infelizes e não precisam se esconder tanto, ainda que não seja fácil assumir-se em muitas instâncias sociais. Mas fiquem tranqüilos: estatisticamente não estamos nos multiplicando.

O pânico que despertamos nos setores conservadores da sociedade supõe que a humanidade inteira é composta por bissexuais e que se estes descobrirem o terrível e fascinante segredo de que o sexo entre os que tem o mesmo sexo é muito mais prazeroso, a espécie humana estará terminada. Apesar de concordar com vocês que o sexo com outro homem é bem mais interessante do que com mulheres, minhas amigas lésbicas aqui discordarão, devo lhes dizer que há homens que gostam de mulher de verdade. É sério! Gostam de beijar-lhes, ternamente, o seio, passar a língua no bico intumescido e descobrir-lhes o quente e úmido do entre as pernas enquanto aspiram ao perfume que, em ondas, emana de seus cabelos É estranho, mas é verdade, existem homens que gostam de mulheres e vice-versa. Ou seja, o pânico de que, se reconhecerem nosso modo de amar como legítimo, a humanidade findará é só uma imensa bobagem.

Outra novidade: crianças criadas por casais gays não se tornam necessariamente homossexuais. A imensa maioria dos gays que conheço e eu próprio fomos criados em lares heterossexuais, numa escola heteronormativa, numa sociedade heterosexista e somos viados. Ou seja, há algo muito forte e real na forma como cada ser humano ama e deseja, capaz de contradizer as instâncias mais fundamentais da vida social. Seu filho, sua linda filha de maria-chiquinha e vestido florido não vão “virar” gay por ver um casal de homens com seu filho na capa de uma revista, nem duas mulheres se acarinhando românticas à luz do dia, pelo contrário, talvez isto os ajude a se tornar seres humanos melhores: mais plurais, humanamente fraternos e capazes de reconhecer o brilho da vida em toda a parte em que ele refulge.

Pra dizer a verdade, os gays não são uma ameaça à família ou a humanidade em geral. O que corrói estas sagradas instâncias é a falta de amor, de interesse no outro, de diálogo e partilha e estes males não tem gênero, nem orientação sexual definida. Lamento informá-los, mas nós não somos os monstros que se pensa, procure-os dentro de vocês. Eu sei dos meus e mantenho-os vigiados, sem deixar que se projetem no outro só porque esse é diferente de mim.

Conversão

Olha, me desculpem as pudicas, mas se alguém tentar me convencer que sexo casual deixa você com uma sensação de vazio depois, não conseguirá. Porque eu me sinto bem preenchida para falar a verdade. Com o bônus extra de uma pele luminosa.
E contando do cara, que é ator, para uma amiga, ela exclama:
-Porra, esse cara é o gato que fez Jesus na Paixão de Cristo no ano de sei lá quando.
Nem precisava disso para que eu me convertesse...
Me lembrem de rezar em agradecimento.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Lombras

Sim, esse é meu visual pela manhã...

Eu consegui acordar sem lembrar como tinha chegado em casa e nem com quem tinha dormido. Até que a ficha caiu. Eu sequer tinha saído, muito menos bebido ontem. Vejam só que economia, senhoras e senhores, não preciso mais gastar um centavo com cerveja. Tô ficando louca de marré descer até dormindo.

E também hoje descobri outra forma de sair da realidade. Acorde. Tome café. Descubra que está sem cigarros. Espere mais umas duas horas em crise de abstinência e só então vá comprá-los. Acenda o primeiro voltando para casa. Escute os passarinhos e os pedreiros falando palavrão. Observe com um olhar artístico o verde do mato ralo e o cinza do cimento que vai fazer surgir futuras paredes. É simplesmente adorável a mistura de sensações. Um leve tontura, a suburbanidade, enfim... recomendo.

E ontem, lendo Marian Keyes, descobri a deliciosa paz que descrevi no post anterior. Ela só acontece no intervalo do sofrimento desesperado pela perda do seu último homem e a euforia tsunamica advinda da descoberta do próximo. Aproveitemos...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Banco de praça


Claro que não existe nada mais gostoso que sair com foco. Pensando em encontrar especificamente um alguém. Sentir o coração acelerar porque você avistou seu homem da vez. Se chegar. Se afastar. Se chegar novamente. Sorrir. Beijar.

Enfim... vocês entenderam...

Meio borocochó com a minha atual falta de preenchimento emocional, fui procurar uma letra de música que lamentasse esse vazio. No lugar encontrei foi uma espécie de comemoração das possibilidades todas que isso, esse vazio, trás.

Cantemos juntos e deixemos que a vida nos surpreenda. Amém.


Mais leve e de Branco

Oswaldo Montenegro

Que maravilha não sentir mais amor
Eu tou mais leve e de branco
Não ver mais graça no seu brilho (eu já vi)
Sentar sozinho num banco
E olhar a rua sem meu olho te procurar
E achar a sua simpatia em qualquer lugar
Pensando bem você que tinha razão
Pesando bem cada fato
Não há tragédia é só o fim
E a canção ficou mais leve e o barato
É olhar a rua sem meu olho lhe procurar
E achar a sua simpatia em qualquer lugar

Comunicação

Passei três dias em casa fazendo crochê. Não, não foi bucólico como na foto acima. Eu estava de pijama de gatinho e não penteio o cabelo desde.

Talvez o chapéu fosse mesmo uma boa idéia...

Ainda assim, mulher respeitável, recolhida do mundo, as novidades acabam por chegar.

Homem-zen comentou com E. que eu estava pegando no pé dele. Foda. Foda mesmo. Até porque quem tem me ligado é ele.

À cobrar.

Não atendi e ele me mandou um torpedo.

À cobrar.

Se alguém souber como receber essa merda de mensagem à cobrar, me ensine, porque eu mesma não consegui.

Cheia de ódio no coração e deixando que minha voz congelasse seus ouvidos, liguei para avisar que não tinha previsão de entregar a merda dos óculos escuros dele, o único motivo que me passou pela cabeça para o sujeito insistir na tentativa de comunicação.

Ele pede o telefone da outra S.

Dei o número e desliguei.

Homem-zen ligou para a outra S. Só para dizer: “Oi, é o homem-zen. Salva meu número, ok?”. E ela sem entender nada.

E não foi à cobrar.

Eu mereço?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Devorações

Eu amo demasiado. Isso é um fato. E me entrego para morrer um pouquinho a cada negativa do outro. E renascer bobamente em qualquer sorriso vão ou delicadeza ínfima logo adiante. Eu me adianto aos desejos que nem sequer são. E atropelo, caminhão, qualquer possibilidade recém-nascida. Sou eu a assassina e a vítima.
Mesmo assim,
hoje,
pijama,
chuva,
aconchego de lençóis
cama.
Se isso não é poesia, eu não sei mais de nada...


E dele que falou mais e melhor...

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas",Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Fera



"... eu sei que flores existiram, mas que não resistiram a vendavais constantes..."

O show de Maria Bethânia foi lindo. Cumpri com minha promessa de gritar “Deusa” em uma demonstração de tietagem explícita. Porque vejam bem, é o que ela é. Uma deusa. Só quem já viu essa mulher num palco (né, Lú?) pode saber do que eu estou falando.

Depois de Bethânia, Totonho. Show num barzinho aqui da terrinha que tem a vista mais bonita da cidade. Gente. Gente. Gente.

Encontrei a cidade inteira.

Iza tava lá, linda e serelepe.

Homem-zen também. Depois de horas sem me dar bola, sumiu. Escafedeu-se.

Quanto a mim, só cheguei em casa de manhã. Ainda sóbria. Cansada. Pouquinha.

Acordei com um telefonema do sujeito. Fui fria. O negócio é que desencantei. Novamente.

Tristeza mode on. E essa merda de tempo chuvoso não ajuda em nada.

Só sei que nessa brincadeirinha estou virando quase uma freira cotó e cega que faz manualmente lençóis de algodão 5000 fios lá no alto Himalaia. Sexo que é bom...

sábado, 22 de janeiro de 2011

Mensagem para você!

Fato: Larguei minhas amigas todas na mesa do bar e fui para o Centro com o homem-zen, que além de não me beijar prendeu meu dedo na porta do carro.

Mensagens posteriores:

De S. para Homem-Zen: Tem como usar meu dedo roxo para te chantagear e conseguir o que eu quiser?

De homem-zen para S.: Pode.

De S. para Homem-Zen: Pedido 1- Massagem nos pés. Pedido 2- Sexo. Pedido 3- Vc concordar com tudo que eu fizer ou disser. Por enquanto é só.

Fato: Voltei para casa com o amigo-beijado.

Mensagens e telefonema posteriores:

De S. para amigo-beijado: Favor enviar relatório dos acontecimentos ocorridos a partir do meu resgate no Centro. Quem é Marinésio e porque ele me ama? Grata.

Amigo-beijado liga.

Eu: Diz, amigo-beijado!!!

Amigo-beijado: Alô? Não, não é ele. É Marinésio.

Eu: Vai se fuder!

Fato: Eu conheci um Marinésio(!?)

Mensagens posteriores:

De Marinésio para S.: Tá melhor? Gostaria de ver você amanhã. Você não gosta do meu nome, mas gostei de você. Você é bem louquinha também. MARINÉSIO

De S. para Marinésio: Eu sou uma gênia. Sério.

De Marinésio para S.: Isso é um sim? Nos vemos amanhã? Antes das oito estarei lá. Te procuro.

De Marinésio para S.: Parece que hoje a gente não se vê. Será que você ainda lembra de mim?

De S. para Marinésio: O homem do nome estranho? Claro! Só não exija reconhecimento imediato quando e se nos encontrarmos.

A era da comunicação, Senhoras e Senhores, a era da comunicação...

E hoje tem show de Maria Bethânia. Rezemos!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Amigos, músicas e carangueijos

Eu amo meus amigos, muito, muito. Sou adepta fervorosa da teoria de Lú de que "amigo meu não tem defeito". Complemento: Tem características. Enfim, amo meus amigos por tudo. Sua beleza, inteligência, glamour, mas principalmente por seu bom gosto musical.

Esta é a música que T. eternizou para nós com sua linda voz dia desses. E recomenda. Emocionem-se com:



Achou pouco? Esta outra me foi veementente aconselhada pela amiga-esposa.



E falando em amizades e músicas. Ontem eu saí com a outra S. e E. que acabou indo cedo para casa. Em algum momento da noite, a outra S. se deu bem e eu, boa amiga que sou, afirmei que também ficaria bem, que ela podia ir transar enlouquecidamente na santa paz do Senhor.
Só que não fiquei. Bem. Mas fiquei sem dinheiro. Resumo da opereta. Quatro da manhã, o bar fechando, uma chuva de desabar telhados e eu ligando para todos os amigos motorizados. O problema foi resolvido, enfim.
A questão é que entre os amigos que não atenderam aos meus telefonemas estava o amigo-beijado (que é músico, por isso amizades e música, sacaram? sacaram?). Me dei conta só hoje quando acordei que podia ter soado meio paixão-desesperada-ela-vai-se-matar-está-bêbada-e-descobriu-que-me-ama uma ligação minha tão tarde. Então resolvi mandar uma mensagem me justificando (não só para o amigo-beijado, mas para todos os sete outros incomodados). Ele me ligou de volta. Disse que eu ligasse quando quisesse, que tudo bem e blábláblá wisckas sachê. Enquanto eu murmurava hunruns pensava: então porque não atendeu, porra?
Algumas horas depois desse momento telefônico, fui dar um cochilo e quando acordei tinham duas ligações não-atendidas do dito-cujo no celular. Liguei de volta (oi?).
Agora é que vem o babado, então se senta...
O amigo-beijado é um dos integrantes do harém da outra S. (que quando soube do ocorrido riu e mostrou sua verve solidária, que divide bens entre os menos favorecidos).
Bobagem?
Ele é também o melhor amigo do homem-zen.
Tá passada, minha filha?
Pois então morra de vez, porque ele falou que tinha ligado porque estava num restaurante com homem-zen (que está sem celular) e o boymagia queria falar comigo. Tá durinha? Pois apodreça sabendo que ambos queriam confirmar uma carangueijada* (eu, eles e a outra S.) para esse fim-de-semana.

Introjetou, baby? Então, vamos as opções:

Opção 1: O amigo-beijado está muito a fim da outra S., e já que ela é muito minha amiga, ele se prestará ao papel de confraternizar com uma louca beijoqueira que fica, coincidentemente, vez ou outra com seu melhor amigo.
Opção 2: O homem-zen está tão na seca, que não só quer falar comigo por telefone quanto também quer me ver para dar uma trepadinha básica e tamanho único. Como é só sexo mesmo nem interessa o fato de eu ter beijado o melhor amigo dele.
Opção 3: O homem-zen está muito a fim de mim, que não só quer falar comigo por telefone quanto também quer me ver para me pedir em casamento. Como é amor nem interessa o fato de eu ter beijado o melhor amigo dele.
Opção 4: O homem-zen tem manias estranhas, que envolvem algemas, chicotes e mulheres que beijam seus melhores amigos.
Opção 5: O amigo-beijado não contou ao homem-zen que nos beijamos. Quer que fiquemos todos bebâdos para enfim abrir o coração entre lágrimas emocionadas e juras de amizade eterna.
Opção 6: Eles querem me matar. Ou fazer sexo grupal. Ou fazer sexo grupal e me matar. Ou me matar e fazer sexo grupal. Tá, vocês entenderam.
Opção 7: Todo mundo é maduro, adulto e civilizado e só eu, uma pobre criatura careta e ultrapassada acho estranha uma situação tão normal e simples como essa.
Opção 8: Caralho, mulher é tudo bicho doido mesmo, um telefonema e essa criatura já desenvolveu tudo isso?

Aceitamos sugestões que sirvam para que eu continue mastigando esse chicletinho mental. Grata.

* Carangueijada é um estranho e curioso hábito do litoral nordestino. Consiste em matar bichinhos indefesos (os pobres dos carangueijinhos), cozinhá-los em uma panela com temperos variados, munir-se de martelinhos e tábuas de madeira. Bater, quebrar, chupar, se melar e resmungar de satisfação durante horas e horas. Intercala-se com cerveja gelada ( a única parte que gosto e participo nesse ritual primitivo).

Bucolismo

É para beijar ou para engolir, Mestre dos Magos?

Amores e amoras do meu Brasil varonil, afirmo agora com toda galhardia (adoro!) que me cabe: minha vida é uma sucessão de emoções. Mesmo em dias como hoje, que decidi não sair do pedaço que me cabe neste latifúndio e quase nem atendi o celular.

Vejam vocês, xuxuzinhos da terra, eu moro logo ali, onde ontem acharam as botas de Judas. Num lugar bucólico e cheio até o céu anil de uma exuberante natureza, mas que exige de você sair torrando no sol do meio-dia para poder chegar num compromisso marcado para três da tarde. Pesquise no Google “Longe para caralho”. Aí mesmo.

Mas eu não perco o bom-humor, vejam bem, e sempre encarei meu triste destino de excluída da civilização com garbo e valentia. Mas hoje foi demais, fofoletes, até mesmo para mim. Saí de casa apenas para comprar cigarros (nem ouse me criticar, madre Tereza!). Bastou isso para me deparar com a praga dos tempos atuais aqui em para lá de Marrakesh. Sapos. Muitos sapos. Pulei alguns que alegremente coaxavam (falei bonito, não foi?) e me sentindo vitoriosa quase esboço um sorriso superior.

Mas a natureza se vinga, senhoras e senhores. Ela é má.

Porque foi exatamente durante esse pequeno momento de triunfo que um EVNI (espécie voadora não identificada) me atingiu. Segundos depois soube-a pelo cheiro. Era aquele bichinho que fede bragaraio e que eu esqueci o nome agora.

Fedida e resfolegante chego no posto e compro meu roliudí, o sucesso, de um atendente que olha para mim e ri. Olha e ri. Olha e ri. Fecho a cara, pego o troco e retorno para casa. Os sapos e os pulos se repetem. Não ousei me sentir vitoriosa again porque aprendo as lições duras que a vida me ensina. Pensa que acabou? Nananinanão! Quem me recebe alegremente no portão de casa? Miró. Não o artista, mas o cachorro da minha mãe, um experimento genético cruza de pitbull com rot(valha!!!). Miró me ama, eu sei, só que sua forma de demonstrá-lo é me derrubando no chão. O que ele fez hoje com toda passionalidade e baba exigida para tanto sentimento canino. Grito, falo palavrão e esperneio. Minha mãe faz cara de inocente quando afirma que ele precisava fazer xixi e ela tinha o soltado para isso. Já falei por aqui que minha desnaturada progenitora o intitula meu irmão mais novo? E sim, ele é o predileto.

Enfim, fui tomar um banho para me livrar dos odores de tanta natureza nimim. Aí me olhei no espelho. Para que, é o que me pergunto até agora. Para que, meus deusis??? A ignorância é uma benção, já afirmava minha sábia (contradição mode on?!) avó.

Eu não usei demaquilante ontem antes de dormir, pensei. Eu saí com delineador, lembrei. Sentiu? Isso mesmo, Jack-Sparow-Deep-Piratas-do-Caribe era meu segundo nome. Entendi a risada do atendente do posto. Só não entendo é minha triste sina. Vida pacata é o caralho, meu nome é Zé pequeno.

Rezemos, irmãs e irmãos, rezemos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Alcóolicas (ou a vida é líquida)

Para a amiga-esposa, minhas desculpas pelos desabafos ébrios de algumas noites atrás

...

"Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras encharcadas de riso, rosadas..."

Mais Hilda. Clica para aumentar.
Ou vai aqui

Para a Borboleta


Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você não acorda tarde, fez anos de terapia, já rí como louca surtada e gosta de brigadeiro (tanto o doce feito com leite condensado quanto como um bom bofe fardado) e de vinho. E de mim.

Então eu tive a coragem de me levantar da frente da tela do computador para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se encheu de vaga-lumes enquanto a noite descia com seus segredos, suas mortes, seus espantos. E nós rimos e dançamos e bebemos e vociferamos.



E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você agora no facebook - tão presente entre as ausentes-sem-vergonha (a ladeira virtual que te trouxe ao meu chalé, aqui nessa montanha recortada pela mão de um engenheiro incompetente) meu coração põe-se a bater cada vez mais depressa.



Para você tudo, amada.
Porque você é linda, tem um riso que não cabe nesse mundo, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.
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