sábado, 24 de julho de 2010

Doença

Estou doente. O corpo dói, a cabeça parece que vai explodir, sinto calafrios e a garganta fechou. Gripe das pesadas. E ressaca. Das grandes.
Ontem depois de dedicar horas à faxina do apartamento fui com a amiga E. para um barzinho no Centro. Show massa, tudo muito divertido, tudo muito legal, mas o corpo já dava mostras de um cansaço estranho. A mente também. Só pode, não encontro outra desculpa além dessa, para o fato de ter recebido aquele homem no meu apartamento e na minha cama. Nos meu pensamentos. De novo.
Atchim.
Merda!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Jumper

“Pular de precipício em precipício, ossos do ofício...”
Talvez tenha sido a conversa, já que hoje fui para uma exposição com três mulheres com no mínimo com dez anos a mais que eu. Uma delas é a amiga-mestra e só há conforto em sua presença.
Vinho durante a exposição e eu recomendo os bares do depois.
No primeiro, a música não era legal, no segundo havia tristeza demais. E eu sem saber.
Quanto me deram vinte e cinco anos, ví a ironia em olhos que se achavam tão mais sábios que os meus. Alegria demais, diagnosticou a amiga-mestra. E eu quase calando.
Então enxergo um amigo numa mesa ao lado. Levanto animada e ele mesmo acompanhado, me abraça com força. Pouco tempo depois, tendo se despedido da sua nova paixão, senta na nossa mesa. E elas me olhando novamente.
Peço para o amigo me deixar em casa. Depois de concordar, o que faz com que minhas acompanhantes se desobriguem de mim, tomamos mais uma cerveja e conversamos e rimos. Muito.
Eu sei que havia desejo. Porque além de tudo, de todo o proibido que sempre nos cercou (e isso é outra história), eu estava linda. E sei que ele tem entrado vez ou outra no meu orkut e tantas outras coisas e detalhes nas últimas semanas e encontros casuais. Sei também e principalmente que depois dele fingir caminhos errados umas três vezes e de nossa conversa maravilhosa que rendeu mais por causa destes erros, eu podia convidá-lo para subir e fazer com que a noite me trouxesse mais fantasias e histórias e textos. Mas não quis. Não com ele. Não hoje. Não.
Porque eu sabia que a juventude do tal amigo seria apenas anestesia. E mais um precipício. E eu não queria pular.
Subi e só tinha tirado os brincos quando o celular toca. Um outro amigo tinha perdido as chaves de casa e é claro que podia dormir aqui. Chega e eu como um resto de brigadeiro enquanto me lamento e resmungo. Uma velha chata.
Agora o outro amigo ronca. Alto. E amanhã tem pedreiros e mais barulho.
Talvez pular tivesse sido o melhor. Mas sabe, é que foi tanta gente que não valeu a pena...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Porque eu sou loser



O Vencedor Leva Tudo


Eu não quero conversar,
Sobre as coisas que nós passamos
Embora isso me machuque,
Agora é passado
Eu joguei todas as minhas cartas,
E foi o que você fez também
Não há mais nada a dizer,
Nenhum ás a mais a jogar


O vencedor leva tudo,
O perdedor fica menor
Ao lado da vitória,
Está o seu destino


Eu estava em seus braços,
Achando que ali era o meu lugar
Eu achava que fazia sentido,
Construindo-me uma cerca
Construindo-me um lar
Achando que seria forte lá
Mas fui uma tola,
Jogando conforme às regras


Os deuses podem jogar um dado,
Suas mentes são tão frias quanto gelo
E alguém bem aqui embaixo,
Perde alguém querido
O vencedor leva tudo,
O perdedor tem que cair
É simples e está claro,
Por que eu deveria lamentar?


Mas diga-me se ela beija,
Como eu costumava te beijar?
Mas diga-me se é a mesma coisa,
Quando ela o chama?
Em algum lugar bem profundo,
Você deve saber que eu sinto a sua falta
Mas o que eu posso dizer?
As regras tem de serem obedecidas


Os juízes decidirão,
As coisas boas da minha vida,
Os espectadores do espetáculo,
Sempre ficam quietos
O jogo começa de novo,
Um amigo ou amante?
Uma pequena ou uma grande coisa?
O vencedor leva tudo


Eu não quero conversar,
Se isso te deixa triste
E eu entendo,
Você veio me dar um aperto de mão
Peço desculpas,
Se isso faz você se sentir mal
Ao me ver tão tensa
Sem auto-confiança
Mas você compreende
O vencedor leva tudo...
O vencedor leva tudo...


Alguém querido...
Leva tudo...
E o perdedor...
Tem que cair...
Lance um dado...
Frio como gelo...
Bem aqui embaixo...
Alguém querido...
Leva tudo...

Crise existencial

Só agora o barulho constante e irritante dos pedreiros diminuiu um pouco. Tenho pensado inclusive, de tanto que tenho falado destes trabalhadores da construção civil, em mudar o nome desse blog para algo ligado á respeito. Reforma e fúria, o que vocês acham? Bom, falemos disso depois...
Ontem a amiga E. chegou por aqui, acompanhada de um exemplar da espécie masculina muito, muito interessante. Era véspera do aniversário dela e bom, vamos dizer que comemorei com mais que brigadeiro e velas (apesar de termos tido ambos, além de cerveja e risadas).
Hoje me flagrei num estado que variava entre pensativo e melancólico. Talvez porque estivesse chovendo muito, talvez porque apesar de tentar manter minha fleuma diante da vida, muitas vezes sou pega de surpresa com uma espécie de pudor retroativo diante de certas atitudes que resolvo tomar.
Liguei para amiga-mestra e gastei todos os meus créditos em ladainhas confessionais. Balbuciei frases desconexas sobre promiscuidade e culpa. Fui interrompida em meus devaneios auto-fragelatórios, quando ela afirmou que tudo é simplesmente um direito meu. Simples assim. Direito sobre meu próprio corpo. Sobre minha vida.
Aí pensei se valia a pena escrever algo á este respeito aqui. Porque sei que muitas pessoas que conheço vez ou outra dão uma olhada neste blog, e bem, apesar de não mencionar lugares ou pessoas a exposição é muito grande.
Então, passei a analisar seriamente a possibilidade de parar de vez de escrever. Porque meu primeiro intuito ao criar esse espaço, foi sim, confessional. E se não me sinto mais confortável em usá-lo para tal, ele perde seu sentido para mim.
Como blogueira das antigas, sei que é exatamente nestes momentos, que, ou vestimos o personagem que é mais agradável aos que nos lêem ou permanecemos firmes, mesmo questionando os porquês, na nossa verdade.
Não quero precisar usar aqui os filtros que utilizo no cotidiano. No trabalho, no ônibus. Os filtros que agora mesmo, me impedem de jogar ovos podres na cabeça dos pedreiros que voltaram a fazer barulho demais. Quero poder desfiar meus nós e questionar meus porquês.
Já não tenho mais tanta certeza se consigo, posso ou devo fazê-lo.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Porque foi bom, amiga!


Amo tú, bebedora de carreteiro.

Seu encargo e minha carga

Foi como se de repente a dor houvesse simplesmente acabado. Ido embora. E em seu lugar, um alegria tímida, novinha, recém-nascida e em tons pastéis.
Três meses. Há três dias. Só hoje me dei conta.
Voltei da feira agorinha, e o porteiro do meu prédio me sorriu e depois de dizer que nunca mais tinha me visto, comenta:
- Gosto das músicas que você escuta logo cedo.
Sorri de volta encantada, porque ele falava de Bach. Subi as escadas, abri a porta e tudo estava em seus lugares. Inclusive eu. Guardei pão e queijo, enquanto esquentava água para um café fora de hora. E penso nessa novidade boa. Nada fora do lugar. Nada mesmo. Nem as horas, que quem as decide sou eu.
E sinto que para você, amiga que amo, eu tenha que ser mais do que eu sou. Me comportar melhor do que agora. Sentir diferente e fazer menos ou mais ou... enfim... ter, que em tempo integral desconstruir essa fantasia de pessoa que não reconheço nas suas críticas e zangas. Não gosto dela, dessa pessoa, e ela não sou eu, saibas.
Meu amor por você não é só mérito teu, ele brota não só desse coração que se expõe, mas de mim inteira, falando e fazendo besteiras. E penso, que talvez, se um dia eu conseguisse alcançar o alto padrão que me exiges, esse sentimento, tal como flor que recebe água em excesso, morreria.
Talvez no fundo, queiras matar é meu reflexo em você. Talvez eu pese em excesso e seja carga em tua vida, não alegria. Sinto muito, então. Mas essas minhas últimas afirmações são só hipóteses.
As verdades absolutas a nosso respeito, deixo à seu encargo.

O barulho dos gatos

Gatos miam enlouquecidos embaixo da minha varanda.
Dizem que sexo entre gatos é doloroso. Não comentarei todos os detalhes sórdidos que já me contaram acerca disso, mas toda vez que escuto esse tipo de barulho me dá vontade de discutir com o divino. Como assim? COMO ASSIM, PORRA?
O negócio é que o barulho começou mal eu cheguei em casa, vinda de uma reunião entre amigos. Quando decidida, acendi um cigarro, liguei o computador e resolvi finalmente enfrentar o escrevinhamento de um conto erótico.
É que esboçamos um blog sobre o assunto e bom... enfim... os gatos...
Vocês por acaso já notaram o quanto esse assunto é espinhoso (desculpem-me o trocadilho, mas não resisti). O tal do sexo. Na vera. Na real. Para mulheres.
Então tá... começo o tal conto (com uma trilha sonora de arrasar) e noto que descrever certas coisas (ó eu sendo delicada) me deixava muito, muito constrangida.
Logo eu, Mané? A rainha das piadas politicamente incorretas? A mulher liberada? A que sempre acreditou em sexo como uma das necessidades primordiais do ser humano, igual a comer e dormir?
Pois é, eu, euzinha, não consegui descrever uma trepada sem romantizar. Virei quase uma Nora Roberts no meu texto. Só faltei falar de estrelas e eternidade e olhares que dizem que enfim, fui bem comida, amor. Só por você.
Pois é, eu sou uma farsa.
Os gatos sabem das coisas. Eu não.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Eu te amo

Eu tinha quinze para dezesseis anos quando escutei pela primeira vez um “eu te amo” de um homem. Aprendi que apesar de não ser um bom dia qualquer, essa frase, pelo bem que faz, não deve ser economizada. Então, não a uso nem com parcimônia nem com cuidado. Mas nunca a deixo escapar quando não é verdade.
No entanto, aprendi que existem várias formas das pessoas reagirem á esta declaração. Se tornam especiais no meu coração, aquelas que a recebem com simplicidade.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Estranhos

“Não valham dramáticos efeitos, mas o que está depois...”
Conversamos muito. Buscamos títulos juntos. Rimos. Quando fomos nos despedir educadamente, em nome da nossa amizade récem-selada, um beijo que só que acabou horas depois. Quase amanhecendo.
E o dia de hoje foi de sorrisos fora de hora com as lembranças da madrugada.
No entanto, mesmo entre suspiros, não havia a urgência nem a ansiedade que caracterizam a incompletude de uma história para mim. A necessidade preemente de que alguma forma ela dê flores e frutos.
Uma quase calma me tomou. De quem fez o que era certo. Difícil explicar, mas é isso. Foi simplesmente certo e bom e justo o que aconteceu.
E somos os dois, criaturas estranhas. Mesmo assim, era o que tinha que ser desde sempre. Mesmo que não volte a acontecer novamente.

domingo, 18 de julho de 2010

Palavrão para quem merece

Ontem, E., amiga de fé, irmã camarada veio aqui em casa. Tinha acabado o namoro e trouxe um vinho que logo acabou. Fomos comprar outro porque a depressão pedia sedenta mais do líquido rubro.
Na volta para nosso refúgio de resmungos, encontro uma figura, que encomprida meus olhos desde sempre. Com ele sempre me comportei como uma dama. Nossa relação, pois, é baseada apenas em confrontos intelectuais. A única vez em que ele me encontrou bêbada na noite, ao invés de beijá-lo, critiquei um trabalho que ele tinha escrito sobre Walter Benjamim.
Então analisem e concordem comigo, nada que sugerisse que eu era facinha e molinha e tava doida para dar para ele.
Bom, continuando, essa figura, que é filosofo, mora na mesma rua que eu, e sempre nos encontramos, tal como ontem, pelas ruas do meu bairro (aqui é a filial do inferno, saibam!).
Coincidentemente, esse ser vai ministrar um dos cursos no tal evento que estou participando como blogueira.
Não sei porque (claro que eu sei, mas finjam comigo), antes de me afastar, no nosso encontro casual de ontem, virei e perguntei se ele tinha recebido meu e-mail com o endereço do tal blog. Ele disse que não, e eu educada e meiga, disse que o mandaria novamente. Chego em casa e mando o tal endereço junto com uma mensagem fofinha. Cinco minutos depois, quem me adiciona no MSN? Ele mesmo.
Conversa vai, conversa vem. Começa a rolar todo um clima de sedução, ele se insinuando, até que eu cedo e convido: Passa aqui. Ele: claro! Vou corrigir umas provas e ligo quando for.
A minha sorte é que não me animei a trocar de roupa, já que ele tinha me visto e eu não queria passar a idéia que me arrumei apenas em sua homenagem.
Mas é claro que eu esperei. Claro, porque eu sou uma imbecil.
Tú veio? Porque ele não. Agora me digam, eu fiz ou não fiz canga do santo sudário?
Então hoje cheguei a uma conclusão, eu causo uma espécie de efeito nos homens, até nos aparentemente bons, que é fazer emergir o canalha que habita seus corações. A culpa é minha, eu sei. Só pode ser.
E eu juro amiga, que farei o possível para não mandar o filho da puta tomar no cú quando nos encontramos novamente (e é claro que vamos), juro que tentarei seguir seus conselhos de mulher fina.
Mas não sei se conseguirei me controlar.

sábado, 17 de julho de 2010

A depilação só dura quinze dias

Esse vídeo é uma humilde homenagem à Ricardo.
"Dizem que as mulheres não devem transar no primeiro encontro, mas se ninguém marca o segundo, eu vou dar quando?"

Fragilidade

Trabalhei ontem das onze da manhã às três da outra manhã. Na frente do computador. O resultado (um blog institucional de um evento de artes) poderia ter saído em apenas quatro horas se eu não fosse tão metida a cavalo do cão. Mas eu sou. E quis aprender sozinha ao invés de pedir ajuda aos universitários.
Dei breves pausas no trabalho, para fazer café e conversar no msn com a amiga esvoaçante e amore, e ele que ontem cedo não merecia sequer uma poesia, voltou a entranhar-se no meu coração.
Nunca pensei em escutar de alguém que eu parecia uma boneca de porcelana, tamanha minha fragilidade. Gargalhei ao ler isso, mas avaliei que o cabelo desarrumado, as olheiras e a pele branca que a cam me mostrava como reflexo, deviam estar ajudando a causar essa impressão. Impressão errada, claro, porque sou uma mulher forte, decidida e independente, como todos sabem.
Enfim, estávamos eu e amore, concordando quanto à idiotice de nos gostarmos tanto, quando ele recebeu a notícia da morte do avô.
Chorei depois, confesso, tanto por ter visto seu rosto em choque sem sequer poder dar-lhe um abraço, como por minha fragilidade recém-apresentada. E por todos esses outros sentimentos tão esquisitos, que ultimamente tem me tirado o chão e puxado o tapete da minha racionalidade. Por serem eles tão reais, tão reais, mesmo que em termos literais não o sejam. Vejam bem, não sou a favor de escrever e fantasiar a vida ao invés de vivê-la. Preciso de presença e de cheiro e de toque. Sou taurina, pelo amor de dadá, o que quer que isso signifique.
Pensando bobagens, quando finalmente fui deitar, cadê o sono? Tomei um ansiolítico e fantasiei que o endredon era ele e me aninhei. Dormi pesadamente e sem fantasmas até as quatro da tarde de hoje.
E eu não quero entender mais nada.
MIMOS
Alberto Cunha Melo
Eu te amo tanto,
que, se o bem,
todo o bem,
for você dormir,
eu me esqueço de mim
e te acalanto.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Uma poesia para quem não merece

Educação

Para R.

Fui ensinada a não falar de boca cheia
e não por os cotovelos na mesa.
Sentei-me ereta por muito tempo,
ganhei da minha mãe, pés de bailarina.
Usei organdi e fui com vovó á igreja.

Então se hoje, por acaso, eu grito,
seja bem educado,
não tape os ouvidos.

Blog, camisola e assombrações

Ontem tive que me obrigar a sair de casa.
Fui ver a amiga-mestra. E foi bom. Conversamos muito. E dando os últimos retoques num projeto, soube-me responsável por criar e alimentar o blog deste evento durante seis meses. Vejam só, que coisa. E recebendo por isso. Jesus salva!
Fui dormir muito tarde quando já em casa tentei dar a primeira cara ao negócio e hoje acordei com fome. Levanto de camisola vermelha (porque sou luxo e glamour) e ao me encaminhar para a cozinha, me deparo não apenas com os velhos e conhecidos pedreiros do prédio ao lado, mas com dois deles na minha varanda. Pois é, estão colocando pastilhas no meu velhinho e decrépito prédio (tipo uma lipo arquitetônica) e escolheram começar por inspecionar minhas plantas (ok, as suas, esposa).
Então agora estou cercada de assombrações literais (não tive tempo de comprar a canela em pau e o "fantasma" se manifestou novamente esta noite) e assombrações de capacete vermelho. Quanto mais eu rezo...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Iniciação aos mistérios

O jardim da minha avó, em Sábados ensolarados, se tornava o território de uma das minhas tias, a quarta das suas cinco filhas.
Ela estendia toalhas e dispunha frascos misteriosos na grama. E eu, brincando com a mangueira, observava encantada seus gestos langorosos e aqueles rituais de amor-próprio tão misteriosos. E quando só de calcinha, aquela mulher grande e sensual, raspava suas pernas com delicadeza, usando muita espuma e risos, eu desejava logo crescer para poder participar daquilo.
Um dia, depois de uma briga entre ela e minha avó, onde eu escutei pela primeira vez a palavra prostituta, minha tia está raspando as pernas e chorando e eu sento ao seu lado e a abraço. Depois de colocar o dedo sobre os lábios, indicando-me silêncio e segredo, ela me depila as pernas com cuidado.
Demorou muito tempo para eu entender o porquê.

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!!!.

Quando decidi pelas férias, um recolhimento auto-imposto estava nos meus planos. Então tenho ficado muito tempo em casa, sozinha. Ou pelo menos é o que eu pensava até dois dias atrás.
Descobri que tenho como convidado no meu apartamento, um fantasma. Não, ele não é dos mais assustadores, é um fantasma delicado e deve ser muito cheiroso, uma vez que é nos perfumes da cômoda ao lado da minha cama, que ele mexe vez ou outra. E os derruba.
Conversei com minha mãe sobre isso, e nós que viemos de uma família que sempre teve que lidar com o sobrenatural, traçamos nossos planos. Não antes de minha precavida mãe testar meu nível de sanidade:
- Não, mãe, não é um amigo imaginário. Sim, as janelas estavam fechadas. Sim, estou tranqüila e bem-alimentada. Não, eu não estava nem estou bêbada. Não, eu não estava dormindo, estava lendo. Não, não houve tremores de terra especificamente no meu bairro. Não, também não houve comunicação à nível plasmático (tá bom, tá bom, essas duas últimas afirmações foram invenções minhas.).
Então munida das informações básicas, minha mãe (socióloga e marxista, acreditem se quiser!) fez lá as orações de libertação dela, seguidas de outras coisas que eu nem contarei aqui, enquanto eu ficava na minha, porque poxa, esse negócio de ficar jogando sal grosso no quarto e acender velas pela casa toda dá um trabalho danado para limpar depois.
Só que o tal do fantasma voltou a se manifestar noite passada. Eu fui é dormir e deixei-o se divertindo com meus vidros e fragrâncias, que tenho mais o que fazer do que ficar me apavorando. Mas isso me fez pensar em montes de histórias familiares. Com carinho e saudades.
Minha bisavó teve quatro filhas, minha avó cinco. Venho, portanto de uma família de mulheres. Um matriarcado cercado de histeria e possessões e receitas para ambos. Mesmo depois de tornar-se evangélica minha avó manteve seu repertório de encantos, tão improváveis quanto funcionais, para casos que iam de verrugas e soluços a aparecimento de espíritos. Depois de começar a fazer terapia e detectar nessas “visagens” que sempre acompanharam minhas tias-avós, tias, mãe e a mim mesma, uma espécie de histeria familiar, acabei por incorporar às minhas histórias engraçadas essas “experiências” familiares com o além.
Mas o realismo fantástico tem lá sua sedução e por mais que seja um sintoma esquizofrênico, esse fantasma cheiroso me chegou como um portador de lembranças de infância, de pensamento mágico e com sabor de tradição familiar. Então pego meu livro de “receitas de família” (comecei a passá-las para o papel, aos dezoito anos, baseada nas lembranças que tenho, já que tudo era passado entre nós de forma oral) e folheio-o. E nele que encontro o texto abaixo:

“Tia Cacilda tinha a receita mais eficaz para “aparecimentos” que não trazem terror ou angústia. Dizia minha tia-avó, que esse fantasma, era o de alguém que a amava e queria mostrar que estava por perto, caso ela precisasse. Então seu segredo era mostrar que estava bem e que “ele” desse seu recado. Compartilhar um chá de canela com o “espírito” era o segredo. Antes de dormir pegue dois paus de canela, ferva-os na mesma água e abafe enquanto se prepara para dormir. Coloque-o em duas xícaras, beba seu chá e deixa a outra xícara onde o espírito tem se manifestado ou aparecido. Você provavelmente sonhará com essa “pessoa” e/ ou receberá o recado que precisa ser dado. Ao acordar beba a segunda xícara do chá, para que o “fantasma” também não sinta mais sua falta e precise voltar.”

Não sei porque, mas quase chorei ao ler isso.
E vou, sim, no mercado central, comprar canela em pau.

Visto temporário

"No temporal da revolução
os baús de enxovais
preciosos das raparigas casadoiras
naufragaram.
Ainda hoje me consolo
com as leituras de Marx.
E, no entanto,
perdi meu enxoval."
Maria Alexandre Dáskalos

Vez ou outra, fico tentada a reler com mais atenção o que escrevo. E me senti casadoira e romântica e imbecil ao reler o post anterior.
Foi como se nele eu me justificasse pelo fato de fazer o que quero e sentir o que sinto e transar com quem transo. E quando quero. Como se nele um romantismo imbecil adquirido ancestralmente, servisse-me de visto temporário para a minha atual liberdade.
Neste tal visto imaginário e literário, carimbei minhas desculpas: “porque é só por enquanto”,” não farei mal a mim nem a ninguém durante muito tempo”,"só enquanto o homem que irá me “apaziguar” aparecer”. “Desculpem-me”. “Perdoem-me”.” Entendam-me”. “Aceitem-me”.
E não é nada disso. Não é porra nenhuma disso. Não tenho a mínima vergonha de ser o que sou, nem tampouco do que quero. E de como. E de quando. E de quem.
Não me imagino varrendo casa nenhuma, com fita no cabelo, feliz da vida, enquanto um homem meu dorme. Ora bolas, estaria na cama com ele. Torcendo para que meu amor acordasse antes e me preparasse café forte.
Mas tampouco me furtaria de lavar chão, roupa, prato e alma, se meu homem os lavasse comigo. Mas nunca apaziguada. Nunca.
Então estamos entendidos?
Agora, por favor, me expliquem...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Amo até a barata

Ontem, um amigo descobriu esse blog. Me questionou acerca da paixão por uma pessoa específica. Usou um nome, ó pecado dos que nada sabem!
Falei-lhe brevemente, ao telefone, coisas bobas sobre licença poética e liberdade. Mas a verdade é que sou sim, apaixonada. Pelo mencionado e pelo que o mencionou, pelos que leio e pelos que me lêem, pelos que abandonei e pelos que me abandonaram. Pelos esquecidos e pelos que nunca cheguei a tocar o rosto com as mãos. Pelos que tiraram minha roupa e me fizeram verter sangues e lágrimas e pelos que apenas discuti sobre meu livro favorito. Por esses dias, tenho inclusive, muito desejado morrer de tanto desejo por alguém que me devora com olhares e poucas palavras. De longe.
Por todos eles, sou sim, apaixonada, dentro da minha medida, que nunca é pouca ou vã. E tão loucamente o sou, que por eles danço tango e pinto a boca e os olhos e me embriago e escrevo.
Enquanto isso, peço ao divino esperançosa e humildemente, que um dia surja aquele que me faça acordar de manhã, prender o cabelo com fita e varrer a nossa casa enquanto cantarolo bobagens. Porque desde que ele esteja perto de mim, todos os outros também estarão.
E finalmente, eu estarei inteira e apaziguada nesse amor absoluto.

Para o Zé
Adélia Prado
Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia, eu que já amava de extremoso amor o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos de bordado, onde tem o desenho cômico de um peixe — os lábios carnudos como os de uma negra. Divago, quando o que quero é só dizer te amo. Teço as curvas, as mistas e as quebradas, industriosa como abelha, alegrinha como florinha amarela, desejandoas finuras, violoncelo, violino, menestrel e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto: “Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível. Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece, tira de mim o ar desnudo, me faz bonita de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega, me dá um filho, comida, enche minhas mãos. Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho. Amo até a barata, quando descubro que assim te amo, o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim, te amo do modo mais natural, vero-romântico, homem meu, particular homem universal. Tudo que não é mulher está em ti, maravilha. Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos, a luz na cabeceira, o abajur de prata; como criada ama, vou te amar, o delicioso amor: com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso, me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo.
O texto acima foi extraído do livro “Poesia Reunida”, Editora Siciliano – São Paulo, 1991, pág.99.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Sob o sol

Ontem na reunião geral do trabalho, numa atitude sábia, porém impensada, solicitei minhas férias. Dez dia apenas.
Mesmo assim, acordei agradecida pela decisão meio que repentina de dar-me direito ao ócio. Não que eu não tenha me dado ao luxo do nada fazer esses meses, mas é que sempre a preguiça era acompanhada por uma pitada de culpa que estragava tudo que eu planejava não estar fazendo.
Então hoje me levantei da cama apenas para comer, ir ao banheiro e comprar cigarro. As garrafas de água me cercam, os lençóis estão desarrumados e não tenho planos nem obrigações. E foi nesse clima de entrega à mim mesma, que tomei a decisão mais importante da minha vida nós últimos anos.
Mas vamos começar pelo começo.
Minha mãe e eu sempre sonhamos com a Itália. Era lá que eu iria fazer meu curso de Artes, planejávamos. Mas fui professora, depois virei executiva, casei, separei, casei de novo, enfim, o meu sonho acabou sendo esquecido pelos caminhos, o meu e os alheios.
Dia desses a amiga-esposa foi para lá. Lá ainda se encontra. E eu nem, nem... Aí hoje me dei conta, lendo um livro que a Borboleta me deu, que sim, é isso. Eu ainda quero. Muito.
E o melhor. Eu posso.
Não um poder que o dinheiro (que não tenho) me daria, mas o poder de grandes decisões que só a liberdade dá. Não tenho o que me prenda à lugar nenhum, assustadora e deliciosa sensação essa...
O arrebatamento que senti com esse pensamento foi tamanho, que tive que ir comprar cigarro. E tive medo, assumo, de escrever sobre isso. Porque dessa forma eu estaria dando corpo à um desejo tão preemente e devastador quanto escondido. Mas aí está. O desejo e as letras.
E os planos.
Acabarei meu curso e vou. No máximo em dois anos.
Porque sim.
Alguém tem um motivo melhor?

Para a menina com uma flor

Conhecer você, minha linda, embora isso tenha sido desde sempre, foi como comer brigadeiro na TPM. Real e figurativamente.
Foi mostrar-me em verdades e mentiras e mesmo assim, só escutar bondades. Tantas que me assustei. Porque você é mesmo uma menina com uma flor, pelo menos a que te dei com todo o carinho que sobra na minha alma cínica, naquela primeira noite tão especial.
Ontem, ao me despedir não respondi o teu "eu te amo". Repito-o agora. E que ele ecoe e faça com que voltes ou com que eu vá ao seu encontro.
Sempre. E todos os dias.
Amo você, saiba.
E que os meus silêncios não tenham sido sobrecargas. E que minha presença não tenha sido pesada. E que a mala que carregas na vida seja sempre cada vez mais leve.
Quanto ao seu destino, nem queria te contar, mas ele é todo cheio de campos de girassóis e grandes amores que plantei para você.
Acredite.
O resto não interessa.
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