quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Hora marcada

Minha cozinha está cheia de poeira. A casa toda está. Um pó fininho e irritante que piora minha tosse recobre cada centímetro quadrado deste apartamento. Ontem resolvi dormir na casa de E. por causa disto. Dormi cedo. Muito.

Chego em casa antes das sete. Aleluia! O microondas-deus escuta minha prece silenciosa e esquenta orgulhoso, teimoso e distante a água para o café que tomo agora enquanto escrevo.

E escrevendo sobre esses cotidianos detalhes ridículos acredito que o resto do dia correrá também assim. Cotidiano. Ridículo. Trabalho, aula, entrega de dois artigos, arrumação do apartamento. Novamente dormir cedo.

Me assusto com a possibilidade de perder assunto, de perder riso, de ficar sem mote. Mas não sou personagem. Ninguém é. Que seja ônibus às seis da manhã, plantas que recebem água diariamente, bons livros lidos e filmes assistidos. Trivialidades podem ser reconfortantes.

Conversando com a amiga que esvoaça, dia desses, ela me falou que os dramas da vida são como colares, meros enfeites. O essencial do que vivo e do que escrevo não está neles. Um dia, um cara não tão amigo me disse que gosto deles. Dos dramas- colares. Mas hoje não, hoje não. Não quero bijouteria barata. Quero o consolo do opaco. Brilho demais cega e esconde o que é verdadeiramente precioso.

Vez ou outra falo aqui sobre um certo alguém que mora longe e que tem me tirado o chão. Mantenho essa relação-enfeite há alguns longos e conturbados meses. Nunca o qualifiquei ou usei a primeira letra do seu nome. O faço hoje.

R. me fez descobrir ontem, que tanto ele quanto qualquer outra ilusão de paixão é apenas por um personagem que inventei. Por uma idéia atraente de mim espelhada em alheios. Ninguém virá enquanto eu estiver longe das minhas verdades. Ninguém nunca vem enquanto nós empacamos em alguma fantasia idiota de nós mesmos. Ou dos outros.

Mas eu, eu quero chegar na hora marcada. Que é sempre e todos os dias.

Soube que meu ex-marido volta hoje, sozinho, de uma viagem para o exterior, longamente planejada por e para nós dois antes da separação.

Eu também.

P.S: E ela sabe das coisas. Aqui.

6 comentários:

Leonardo Xavier disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leonardo Xavier disse...

Eu acho que ultimamente tenho sentido que a beleza do cotidiano está lá, só falta a gente saber olhar. Também tenho sentido que talvez se possa transformar dor, angústia, revolta e solidão em algo positivo.

Borboletas nos Olhos disse...

Trivialidades podem ser reconfortantes (2). Sei não, mas acho que é meu lema pros dias pares. Gosto da rotina, gosto do cotidiano, gosto. E gosto de chegar na hora marcada e não perder o trem da minha história. Mas, às vezes, estamos na estação e ficamos entretidas com, sei lá, livros ou um bonitão que nos vira a cabeça. Acontece, rsrsr. Te amo de montão.

Caminhante disse...

Me identifiquei muito com essa descoberta que R. te fez ter. Teria mais de uma biografia pra te contar a respeito disso. Por que será que temos esse necessidade, ao invés de nos orgulharmos pelo fato de fazermos de tudo sozinhas?

Ricardo Chicuta. disse...

Aqui em casa tbém esta cheio de pó,mas deixa quieto que a polícia não pode descobrir não.

Borboletas nos Olhos disse...

Ei, linda, tu viu que tem S. em Portugal? rsrsr. O link: http://asminhaspequenascoisas.blogspot.com/

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