segunda-feira, 14 de junho de 2010

Sede

"Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto, a mesma densidade. Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto. Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim."

Caio Fernando Abreu

Alguém me passa a Coca-Cola para ser tomada como café-da-manhã? Não, não quero brioches nem geléias importadas nem frutas frescas, quero corrosão no estômago, para que morram as borboletas coloridas que me fazem apertar a barriga com força e andar sempre à procura. Quero afastar de mim esse afeto pela humanidade, essa porra de sentimento que me fará sair de casa daqui a pouco em busca de beleza nos muros descascados e em velhinhas com sombrinhas negras. Que me fará te buscar em cada homem que carregue um livro. Que me fez pintar flores na parede acima do meu colchão, como não devia ser.

2 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

P*** que P****! Assim dói.

Ricardo Chicuta. disse...

Caio F. é muito bom.
E ternura demais machuca mesmo.Um pouco de ódio no coração protege e é bom.

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