segunda-feira, 31 de maio de 2010

Menino abusado

Eu o conheci no Sábado. Um menino abusado, amigo de um amigo, que me chamou para dormir com ele na cara dura. Ri e mandei-o me procurar quando estivesse sóbrio. Fui dançar e esqueci. Acordei no outro dia com um telefonema e um convite para um jantar caseiro.
Imaginando-me a sobremesa depois do tal jantar, acabei nem cogitando ir e, educadamente hoje mandei uma mensagem desculpando a minha ausência. O menino abusado retorna minha mensagem com outro telefonema insistindo em me ver. A curiosidade matou o gato e acabei por convidá-lo para dar uma passada aqui em casa (no MEU território, onde sei onde estão guardadas as facas) e tomarmos um café.
Quando abri a porta prendi a respiração. Ah! A juventude, principalmente quando acompanhada da beleza!
Uma hora de conversas amenas acompanhadas do tal café passado na hora e música. Como uma dama que sou, ao anunciar sua partida, levo o menino abusado até a portaria do prédio, onde o dito cujo me questiona se agora que eu não mais o considero um serial killer irei visitá-lo (somos vizinhos de bairro). Sorrio e respondo que claro que sim, recebendo então um abraço apertado. E um beijo no pescoço, quase um suspiro, que fez minhas pernas ficarem bambas e despertou o desejo imediato de arrastá-lo de volta para o apartamento e para minha cama.
Mas... não o fiz.
E agora me revolto com minha maturidade imbecil, que me fez ter a “necessidade de ficar sozinha comigo mesma para conhecer-me melhor”. É ela que está baixando True Blood da Internet para assistir. Sozinha. Na cama. Excitada. Sozinha. Na cama.
Merda!

sábado, 29 de maio de 2010

Exaustão

Existe essa ânsia, esse desejo extremo e desvairado do desconhecido em mim que antes eu resolvia com arte. Ou com sexo. Agora é vazio porque eu estou esgotada e as idéias que antes eram transformadas em cores e letras e gemidos metamorfosearam-se em uma interpretação medíocre de qualquer coisa estranha e ridícula.
Tenho me sentido uma charlatã. Ajo, penso, falo e me insinuo como uma.
E o desejo queima e consome. Talvez seja a parte do processo de me tornar em cinzas para ressurgir logo mais adiante, de encontrar na próxima esquina essa coisa que é só ausência e saudade. Mesmo assim tudo dói, nervos, músculos (principalmente o coração), articulações e mente.
Estou exausta.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O melhor da noite

Ontem teve show de João Bosco na minha cidade e cercada de pessoas amigas fui para comemorar a mudança e tal e coisa e coisa e tal. Tomei cerveja e uísque, o que não recomendo para ninguém que quer passar menos de trinta e cinco minutos tentando enfiar a chave na fechadura quando voltar para casa. Mas o melhor da noite (que eu lembre) foi encarar o menino bonito e prepotente que venho paquerando há uns tempos e é muito, muito galinha e perguntar:
- Onde eu pego a ficha?
Ele afagou minha cabeça e riu, o imbecil. Podia ter me beijado, né? Mas não, afagar cabeça é pior que chuveirada gelada. Imbecil. Quero mais não. Pelo menos por hoje.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O motorista do caminhão que trouxe minha mudança era seresteiro. E engraçado. Vim rindo.
Tudo já está no lugar.
Minha coluna não.
e "andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar."

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Outra mudança

Ontem, enquanto me arrumava para ir a um show, a amiga liga e pede para eu passar antes lá no café dela. Pelo tom de voz, assusto-me com as possibilidades. Quando cheguei, apressada, o motivo da ligação era um convite.
- Vamos dividir o apartamento?
Concordei. Parecia perfeito já que nos damos bem, muito bem mesmo e o apartamento que ela mora é bem mais central que a casa florida de minha Mãe. E ela tem os móveis que eu não tenho.
E eu terei uma liberdade que não tenho.
E como tudo muda muito rápido na minha vida, aqui estou cercada com os livros e roupas e poucos móveis que amanhã encararão junto comigo outra mudança.
Sim, confesso-me assustada. Mas peço ao divino para que tudo dê certo. Outra vez.

domingo, 23 de maio de 2010

Texto

Existem certos livros que parecem que foram escritos especialmente para mim. Prepotência, eu sei. Mas foi exatamente assim que me senti enquanto lia “Uma espiã na casa do amor” de Anaïs Nin.
Sei que um texto sem um contexto é sempre motivo de pretexto, mas ainda assim lá vai:
“No espelho estava a imagem daquilo em que se tornara e a imagem que apresentava ao mundo, mas seu secreto eu interior podia ser subjugado por uma enorme roda de caminhão.
Era sempre nesse preciso momento de poder diminuído que aparecia a imagem de seu marido, Alan. Era necessário um estado de fraqueza, um certo desequilíbrio interior, um certo exagero dos seus medos, para evocar a imagem de Alan.”
Recomendo.
E hoje é dia de brincar de ser feliz.

sábado, 22 de maio de 2010

Amor

Tenho um amigo de outros carnavais que reencontrei dia desses. Ele também está saindo de um casamento e ontem me chamou para um jantar na casa dele. Apesar de morta de sono e de cansaço, e de morar num fim do mundo esquisito onde os ônibus só passam até as oito da noite, coloquei um vestido lindinho, chamei um táxi e fui, já que com certeza as gargalhadas seriam fartas.
Fiz bem, os outros convidados eram interessantes, a cerveja gelada, a comida uma delícia, a música perfeita (isso inclui Gretchen) e as piadas politicamente incorretas. Acabou que bebemos demais e o amigo, impossibilitado de me deixar em casa, me convidou para dormir na casa dele. Topei. Cavalheiro que é, ofereceu-me sua cama e propôs dormir na sala. Neguei e bati na cama ao meu lado convidando-o para partilharmos conforto.
Esse seria o momento em que nos descobriríamos apaixonados. E foi. Por nós mesmos. Novamente. Conversamos horrores antes de dormir, trocamos confidências a respeito de quem queríamos na cama no lugar um do outro (ele uma amiga minha e eu um amigo dele) e algumas gargalhadas depois eu me dei conta que depois de muito, muito tempo eu me via interagindo com as pessoas e gostava do que via. E do que sentia.
Eu não estava mais assustada ou bêbada demais ou com raiva e bebendo por isso ou sendo controlada por olhares acusadores ou querendo ser conveniente ou todas as opções anteriores juntas e não necessariamente nesta ordem. Era só eu. Novamente. E vejam que surpresa, as pessoas que partilharam (adoro essa palavra) comigo da noite de ontem, realmente pareceram gostar de mim. Ou ao menos, pegaram meu celular, me convidaram para mil coisas, declaram amizade eterna, enquanto eu controlava a vontade de me olhar no espelho para checar se algo poderia me caracterizar como uma aberração que precisava ser mostrada em público.
Resolvi relaxar e aproveitar quando notei que ninguém estava ainda tão bêbado e que aquelas realmente eram pessoas legais e eu estava sendo neurótica por costume. Os anos em que passei escutando constantemente o quanto eu era inadequada, quase me fizeram esquecer que eu (às vezes) consigo animar qualquer festa e que sim, Meu Deus, eu ainda sou bonita e oh! Meu vestido está no comprimento exato da minha vontade. Acordei com um bilhete do amigo, que tinha ido passar o dia com os filhos, pedindo que ficasse a vontade, assaltasse a geladeira se sentisse fome e me declarando seu amor eterno. Não assaltei a geladeira, e em jejum voltei para casa saboreando um amor imenso. Por mim mesma.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cafajeste

Gostava muito de um blog conhecido e engraçado. Fazia comentários vez ou outra sempre sabendo que a possibilidade de ser respondida era ínfima, uma vez que o meu era apenas mais um entre trocentos comentários. Qual não foi minha surpresa a entrar novamente no tal blog e o autor deste se dignara a responder ao meu comentário com as deliciosas alcunhas à minha pessoa: deprimente e vulgar.
Com toda a vulgaridade e depressão que me cabe deletei-o dos meus preferidos. E se você veio aqui pela propaganda gratuita que este conhecido blogueiro proporcionou-me, não tem nada aqui que te interesse. De verdade.

Baixinho

Minha mãe é um docinho. Desde que estou aqui ela sempre tem me acordado com café-da-manhã pronto e histórias engraçadas sobre tudo. Aos 65 anos parece estar ligada na tomada, fazendo sempre dez coisas ao mesmo tempo e chega a ser cansativo vê-la indo de lá para cá passando pano na casa e falando ao telefone ao mesmo tempo. O tal pano nunca limpa de fato nada, mas espalha a sujeira de um modo, digamos, mais uniforme. Não preciso nem dizer que a casa é um tanto quanto caótica.
De alguma forma ela conseguiu se adaptar maravilhosamente nesta cidade estranha, apesar de ser brigada com todos os nossos vizinhos de rua. Essa mulher intelectualizada e sozinha criou do nada um jardim orgulhoso e três maravilhoso cachorros, motivo de alegria e muito, muito stress. Mas isso não quer dizer nada, uma vez que ela se estressa com absolutamente tudo. Por nunca ter aprendido a cozinhar direito, uma das minhas piadas preferidas era que ao vir passar uns dias com ela, eu sempre emagrecia porque nossa dieta era basicamente composta de papoula e rosas amarelas.
Mas uma das coisas mais divertidas nesta nossa casa branca é o jardineiro que a ajuda em suas intenções inglesas. Baixinho (o apelido do dito-cujo) parece um gnomo e hoje pela manhã me encarou da porta do meu quarto com um riso no rosto e um discurso ensaiado. Eu de camisola e ainda remelenta escutei seu texto, que foi mais ou menos esse:
- Minha fia, agüente pedindo ao senhor Jesus ajuda e força e num chore que tudo tem seu tempo. Ocê é jovem e formosa e o que é seu há de chegar.
Em choque, balancei a cabeça concordante e juro, quase caí em um pranto confuso. Mas comecei a rir quando, momentos depois, escutei a briga dos dois, minha Mãe e Baixinho sobre a invasão do segundo à minha depressão matinal. Entre outras coisas ela o chamou de bucho de piaba e ele a chamou de chata dos infernos.
Tédio não é, em absoluto, a ordem do dia nessa minha nova morada.

Sacolas

Acordei agora no meio de um pesadelo. Me deparo com sacolas que enchem o meu quarto e mal me deixam espaço para andar. Hoje o ex-marido resolveu mandar o que me pertencia e ainda estava em minha antiga, confortável e amarelinha casa numa caminhonete alugada, incluindo algumas velas pela metade e quadros que pintei para ele.
Racionalmente tento me convencer que isso me poupou o trabalho de ter que providenciar essa mudança eu mesma, mas a verdade é que estou muito puta da vida. Para que vou querer as porras dos cotocos de vela? Talvez eu faça um boneco de cera do dito-cujo para fins de vodu. Quem sabe...
Meu signo passando por Cancêr estimulará contatos mais afetivos e emocionais, diz o meu horóscopo do dia. Só se for com o meu travesseiro- penso irritada.
O psiquiatra aumentou minha dose diária de anti-depressivos e eu passo a rezar para que os dons da alopatia pesada se manifestem rapidamente antes que eu vire uma alcoólatra enlouquecida. Sei não, nada fácil por essas bandas, amiga. Mas como diz alguém, se não agüenta, pra que que veio?

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ressaca

A situação tá deprimente. De ressaca em plena terça-feira.
Mas ainda posso rir.
Porque a amiga que é má influência conta histórias engraçadas e diz que no final da novela eu vou acabar com o cara certo. O cara certo é um chato. Eu não gosto dele nem ele de mim.
Eu preciso muito de um dorflex.

sábado, 15 de maio de 2010

Post triste

Nos Sábados e Domingos existia uma espécie de trégua informal na guerra não-declarada que meu casamento havia se tornado nos últimos tempos. Eu e o homem que escolhi para passar o resto da minha vida íamos à praia, tomávamos cerveja, assistíamos TV, fazíamos sexo. E quase chegávamos a acreditar que tudo poderia ficar bem. Talvez por isso esses sejam os dias mais difíceis de encarar sem pegar o celular e ligar perguntando que merda foi essa que fizemos com nossas vidas e implorar para voltarmos e tentarmos novamente concertar tudo e porra, eu estou sofrendo e você.
Mas eu acabo por me conformar com o vazio na minha cama e na minha vida tentando racionalizar para manter-me firme na minha decisão de ir embora daquela loucura toda. Mas não é fácil, sabe? Dói para caralho e eu sinto falta do cheiro e da presença daquele homem e de sua risada e de meu conforto ao sabê-lo ali. É muito difícil voltar a ser eu mesma, porque não sei muito bem quem eu realmente sou sem fazer parte do casal que éramos. Complico a frase porque não sei bem como descrever a sensação de amputação que essa separação me trouxe.
Também tenho medo de me fuder sozinha. Porque não terei a quem culpar se tudo der errado. Sei como isso pode soar terrível, mas a verdade é assim. Terrível. E tudo ficar pior quando falo com minha comadre que era também minha vizinha e cunhada e ela me conta do sofrimento dele. Não quero ter que lidar com o fato de tê-lo magoado, mesmo que este homem tenha me magoado muito também.
Sei que este é um post triste, mas nenhuma guerra acaba sem mortos e feridos. E eu estou muito, muito ferida. Que eu consiga sobreviver, imploro em preces silenciosas ao divino antes de dormir. E não só nos finais de semana.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Quinta

Quinta é o dia da semana que me dedico junto com outras quatro amigas amadas aos trabalhos embriagatórios. O local escolhido para esbanjarmos gargalhadas homéricas fica ao lado da universidade. Chegamos por volta das sete da noite e sempre iniciamos a noite com juras de sobriedade e anunciando que naquela quinta específica vamos embora no máximo as dez.
Ás três da manhã alguém decide que cair daquele jeito no banheiro foi muito, muito, muito embaraçoso e levanta da mesa, que a esta altura provavelmente virou uma exposição de pessoas conhecidas e desconhecidas estranhas e/ou interessantes que cantam ao som de algum instrumento músicas de Nando Reis. Ninguém presta atenção a anunciação da primeira desistente porque uma das amigas deve estar lendo a mão de alguém, outra estará beijando alguma boca e a terceira jogando sinuca e portanto, não estará na mesa. No outro dia nos ligamos para saber quem fez o que, quem foi para casa com quem e quem perdeu o que além do juízo. Ou não.
Quinta é um dia muito, muito bom.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Caio

"Tenho uma vontade besta de voltar, às vezes. Mas é uma vontade semelhante à de não ter crescido."

É que Caio F. Abreu já escreveu absolutamente tudo a nosso respeito, meu querido, sabecuméquié?

Um dia daqueles

Hoje foi um dia daqueles. Que você diz verdades, levanta a voz para se impor, coloca limites na relação com os outros antes do meio-dia, e repete a mesmíssima coisa depois das três da tarde exaurindo-se. Desmistifica situações e pessoas. Ajuda amiga com compras, estuda e trabalha muito e ainda vai lendo no ônibus para aproveitar e já ter algumas idéias engatilhadas praquele projeto que era para ontem. Escuta brigas e gritos e desabafos.
Daqueles dias em que você presencia carros capotando e gente morrendo ao sair do posto onde compra cigarros, e quando chega em casa e avista seu jardim apaziguador com mãos tremendo, recebe uma ligação da chefe-mor elogiando seu trabalho e é hoje ainda, sabe?
Você separa os livros que vai ler em ordem obsessiva-compulsiva ao lado do computador e se encaminha para o banheiro e uma ducha rápida antes de continuar sua peregrinação rumo ao brilhantismo intelectual. Então pensa em Sartre e seu “Esboço para uma teoria das emoções” enquanto seus cremes e frescurinhas te acenam saudosos da prateleira.
Egoistica e irresponsavelmente você os escolhe. Os cremes e as frescurinhas.
Desliga o chuveiro, coloca Nina Simone para cantar e ela sussurra lindamente enquanto você pacientemente retira o vermelho descascado das unhas, esfolia corpo, rosto e pés, depila até o fiofó, faz as sobrancelhas enquanto usa touca térmica e três cremes de cabelo diferentes, depois coloca máscara para o rosto (daquelas que mocinhas de comédia romântica usam quando não esperam o cara que estão a fim aparecer que é claro, surgem repentinamente no lugar do entregador de pizza e que ficam ainda mais apaixonados pela dita-cuja de cara branca), seguida de adstringente e anti-rugas. Finalmente passa óleo no corpo todo e cheirosa, linda, esfregada, renovada, lambuzada e saltitante percebe que há muito não se dava ao direito destes ataques de vaidade reconfortantes e merecidos.
Você fez isso hoje? Que feio! “Esboço para uma teoria das emoções” é um livro essencial na vida de qualquer ser humano. Tsc, tsc... mulherzinha fútil!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Roubo

Roubado daqui. De novo. É porque diz tudo, sabe?
E sim, vão , porque vale muito a pena.

Biblioteca

A amiga empregadora tem a biblioteca dos meus sonhos. São quatro estantes enormes repleta de preciosidades, principalmente em arte e filosofia. Ela se mudou dia desses e hoje, depois de convivermos durante tempo demais com caixas em excesso (trabalhamos vez ou outra na casa dela), resolvi dar uma força para arrumar tudo. Quem disse que os livros só exigem de nós esforço intelectual?
Tô morta.
E dou meu reino por uma massagem.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Era só.

Porra, e quem disse que eu também não quero um guri e um jardim e um cara legal e uma secadora e uma lavadora e as contas pagas no fim do mês e um cachorro e um gato e cheiro de lavanda no lençol e dormir abraçadinho e um forno de pizza perto da churrasqueira e tomar cerveja com os amigos em comum e ter uma vida saudável e fazer feira e todas essas coisas que você e todo mundo quer (as que já tive e as que talvez nunca tenha).
Era só você ter me beijado.

Guidom

Tomei todas na quinta-feira. No Sábado também. Fiz e falei todas as coisas que podia. Mas caprichei principalmente em fazer e falar coisas que não podia de jeito nenhum. Talvez por isso mesmo tenha feito. O resultado é que dei a chance de pessoas que nem gosto de fato, mas quero que gostem de mim mesmo assim, me interpretassem utilizando-se de psicologia barata e preconceitos.
O que eu sei é que a sensação que tenho tido por esses dias esquisitos é a de alguém descendo uma ladeira muito, muito ingreme de bicicleta. Se eu frear agora, me esborracho toda, mas se continuar segurando firme o guidom, os riscos de desastre diminuem consideravelmente, apesar de não desaparecerem de todo.
E se eu invento dramas secundários, é porque não quero pensar no principal. Direito meu.
Eu sei que tenho enchido o saco das pessoas. Eu sei. E isso não é direito, penso. Mas é assim que tem sido, sabe?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Jogo

Ontem, fui para uma reunião que durou até umas oito da noite no centro da cidade. Saio de lá, com sede, com tédio e com preguiça de voltar para casa. Ligo então para amiga corintiana propondo encontrarmo-nos para ver o jogo no local de sempre (para quem não sabe o jogo foi CorinthiansxFlamengo e nos perdemos). Eu, uma recém-convertida aos prazeres do futebol , que incluem, no meu caso específico, gargalhadas histéricas e sensores de testosterona, chego mais cedo que a amiga e da minha bolsa-mala saco um livro, que finjo ler no escuro (pensei seriamente em pedir para passarem no telão do bar uma dos meus DVD’s de yoga, enquanto o jogo não começava, mas achei um tanto inapropriado para a ocasião), peço uma vodka, um petisco e como e bebo e finjo ler cercada de homens com o uniforme de seus respectivos times e jogadores de sinuca.
Nada demais na situação, até que ao ocasionalmente levantar meus olhinhos meigos vejo adentrando no recinto, o homem-teflon. Não satisfeito em quase me causar uma parada cardíaca, o divino o faz chegar acompanhado do homem-carcará (post abaixo). Fecho o livro, abro um sorriso conveniente e abraço ambos, convidando-os para sentar comigo. O dialogo abaixo se segue:
Homem-Carcará: - Oi, S. Ia até pedir ao homem-teflon seu telefone para conversamos, mas...
Eu: - Vamos fazer uma coisa? Esquece aquilo, ok? Eu não estava bem e aquela foi uma semana bem complicada para mim.
Bom, o “aquilo” acima citado fica para um outro post. Nossa pseudo-conversa cessa com a chegada da amiga corintiana com o namorado e outro casal amigo. Educada que é, e também amiga de ambos, a amiga corintiana os convida para sentar na mesa. Eles recusam e sentam em outra mesa, bem na minha frente. O jogo começa.
Juro que tentei prestar atenção, juro que gritei e roí as unhas e fiz tudo que tinha que fazer nos momentos adequados da partida. Intervalo. Banheiro. Arrumo o cabelo quando o homem-Teflon chega e diz:
-S...S... Recebi seu e-mail.
Eu, com o coração aos pulos, uso a técnica de fazer cara de doida. Homem-Teflon acrescenta:
- O da tal vereadora que quer aprovar aquele projeto de lei. Assustador mesmo essa tentativa de retrocesso na nossa cidade! (ou algo assim)
Ai, graças a Deus, penso eu, ele se referia a um e-mail que mandei para todos que eu conheço e não o e-mail que mandei só para ele (post abaixo). Engato uma conversa sem sentido sobre a tal lei e saio meio de repente ao notar, que sim, eu queria que aquele porra me beijasse.
Momentos angustiantes no segundo tempo. O jogo (de futebol) termina. Confraternizo, rio, bebo, lamento o fato de termos perdido, e num momento de insanidade ao avistar o Homem-Teflon encostado numa grade, pego minha dose, levanto decidida e caminho em sua direção.
O resumo da conversa que se seguiu é muito longo para ser considerado um resumo. Mas ao tentar entender o que estava contido nas entrelinhas dessa conversa, chego agora, em plena luz do dia, as seguintes conclusões:
1- O homem-Teflon fez com que eu acabasse por acreditar que eu realmente agi como uma louca varrida, mas ele, condescendente, inteligente e da paz que é me perdoa por ter confundido o que aconteceu entre nós com qualquer coisa parecida com um envolvimento.
2- Sim, ele tinha outros compromissos para aquela noite, e sim, ele não quer saber de mais nada comigo. (E nunca houve nada antes também, sua louca!)
3- Eu sou uma pessoa muito interessante e se eu me comportar e prometer não me envolver, nem fantasiar, nem querer nada de sua pessoa, pode ser que consigamos um dia nos tornar amigos.
4- Esse negócio de “entrelinhas” é coisa de mulher neurótica e em conversas masculinas nunca existem “entrelinhas”, o que prova que eu realmente não estou suficientemente madura para ser amiga de pessoa tão despida de subterfúgios e jogos.
Sento na mesa que me cabe, deixo-o com suas certezas e ao ir embora, vou me despedir. Nos abraçamos e ele me deseja paz. Digo que acho paz uma coisa muito chata. Vou embora. Durmo com a seguinte frase de Adélia Prado como música de ninar na cabeça: “Eu não quero a faca nem o queijo, eu quero a fome”.
Fim de jogo.
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